Este artigo tem como objectivo apresentar, de uma forma breve, as origens da disciplina de Interacção Pessoa-Máquina.
Tradução de “Human-Computer Interaction”
É necessário esclarecer que a expressão “Interacção Pessoa-Máquina” não é consensual em Português como forma de traduzir “Human-Computer Interaction”. Outras expressões são usadas como tradução, como por exemplo “Interacção Humano – Computador”, ou “Interacção Homem-Máquina”.
Mesmo em Inglês, existem várias expressões que são usadas indistintamente, como “Man-Machine Interaction”(MMI) ou “Human-Machine Interaction” (HMI) (Booth, 1989).
O objectivo da disciplina é estudar a relação que existe entre as pessoas (utilizadores) e qualquer “computador” (máquina). A questão é que, hoje em dia os computadores estão presentes em praticamente qualquer ferramenta que usamos pelo que o uso da expressão “máquina” em Português é usado com o propósito de clarificar que o domínio da disciplina vai para além dos vulgares computadores (de secretária ou portáteis).
Origens
A expressão “Human-Computer Interaction” tornou-se popular em 1980 com a publicação de um artigo que propunha um modelo de avaliação da performance de utilizadores de sistemas interactivos (Card, Moran, & Newell, 1980).
Contudo, os primeiros contributos directamente relacionados com a área foram publicados na década de 60. Não obstante, para Alan Dix, professor de Human-Computer Interation na University of Birmingham as raízes da disciplina são bastante mais antigas e remontam ao início do século XX com a introdução de estudos sistemáticos da performance dos trabalhos manuais dos operários nas unidades fabris (Dix et al., 2003).
As várias guerras que ocorreram ao longo do século passado – destacadamente a Segunda Guerra Mundial – serviram de ímpeto ao desenvolvimento tecnológico e à criação de armas e máquinas complexas que trouxeram novos desafios aos seus utili- zadores em termos de processo de tomada de decisão, atenção, coordenação motora e visual, entre outros (Wikipedia, 2012).
Ao mesmo tempo, intensificou-se o interesse dos investigadores por estas áreas e aumentam os estudos relacionados com as capacidades e limitações humanas na execução de várias tarefas.
Alphonse Chapanis e o início da ergonomia
Em 1943, Alphonse Chapanis, um tenente do exército dos Estados Unidos da América e um dos fundadores da ergonomia, mostrou que era possível reduzir o número de acidentes com aviões militares cujas causas estavam associadas a erros do pilotagem (Meister, 1999).
Chapanis, na época também estudante de doutoramento em psicologia, trabalhou em vários projectos onde estudou a interacção dos pilotos com as aeronaves. Num desses projectos, foi observado que dois comandos do bombardeiro Boieng B-17 (um que controlava os flaps e outro o trem de aterragem) eram muito semelhantes e estavam justapostos, o que induzia erros, sobretudo quando usados sob stress.
Assim, Chapanis, ao propor uma simples alteração de design tornou os comandos diferenciáveis e mais fáceis de usar (Joyce, 2010).
Anos mais tarde, em 1949, publica conjuntamente com Garnet e Morgan, o primeiro livro sobre esta área “Applied Experimental Psychology: Human Factors in Engineering Design”. Nesse mesmo ano, Murrell, engenheiro químico inglês cria um grupo formal de especialistas de várias áreas, cunhando a expressão “ergonomia” e criando o instituto de investigação“Ergonomics Research Society”.
A expressão ergonomia tornou-se popular na Europa, enquanto que nos Estados Unidos da América se tornou conhecida como Factores Humanos (Human Factors). A partir daí, a ergonomia cresceu enquanto disciplina focada no estudo das interacções entre equipamentos usados pelas pessoas, no sentido de maximizar a performance das máquinas e o bem estar dos seus utilizadores.
Ergonomia aplicada aos computadores
Possivelmente a primeira vez que a ergonomia foi aplicada num processo relacionado com a concepção de computadores foi em 1959, numa reformulação de design de um computador analógico EMIAC II, destinado a uma central nuclear. O artigo “Ergonomics for a Computer” refere que o objectivo do estudo foi reduzir potenciais riscos de utilização dos seus utilizadores e foi considerado um sucesso.
Em 1968, Douglas Engelbart apresenta um trabalho de investigação levado a cabo entre 1962 e 1968 e usa pela primeira vez a expressão “Man-Computer Interaction”.
Esta apresentação ficou conhecida também como a apresentação pública do rato, do hipertexto, da partilha de ecrã como forma de trabalho colaborativo entre duas pessoas em diferentes locais, entre outras invenções.
Em 1976 é publicado um artigo que aborda o impacto das “novas tecnologias de comunicação” como os processadores de texto, o correio electrónico e a grande disponibilidade de computadores pessoais na gestão de topo das organizações.
É precisamente a partir do início dos anos 80 com o advento e a proliferação dos computadores pessoais que a disciplina de Interacção Pessoa-Máquina ganha relevância e se torna numa disciplina autónoma, acompanhado o desenvolvimento da ciência da computação.
Livros que recomendo sobre Interacção Pessoa-Máquina
Se desejar aprofundar os conhecimentos sobre Interacção Pessoa-Máquina, ao longo do texto, existem várias referências a artigos e livros interessantes.
Aqui fica a minha análise de alguns livros essenciais.
Human-Computer Interaction (3ª edição), 2003
Avaliação: 4.5/5
Um livro clássico de Alan Dix, professor da University of Birmingham. É muito completo e está cheio de bons exemplos. Tem muitas referências para material on-line e tem disponível um sítio Web.
Uma vez que já se passaram vários anos desde a sua publicação, alguns exemplos estão datados. Uma 4ª edição está em preparação, mas ainda não tem data definida para publicação. Contudo, uma vez que o livro apresenta os fundamentos de teoria sobre as características humanas, como elas não variaram muito, continua a ser um livro recomendado.